02 fevereiro 2015

Vemo-nos gregos para pagar

O Manel dava voltas e mais voltas na cama, sem conseguir dormir. A Maria, impedida de dormir pelas voltas do marido pergunta-lhe: "Atão Manel, que se passa homem?", "Ai mulher, amanhã vence a letra de 500 contos ao vizinho Alberto e eu não tenho dinheiro para lhe pagar." "Ai, então é isso?", responde-lhe a Maria. "Pera ai que eu já resolvo o problema." A Maria levanta-se e, após alguns minutos, volta decidida: " Vá Manel, já podes dormir descansado!", "Então Maria??!!", "Olha fui bater à porta do vizinho e dizer-lhe que não tens dinheiro para lhe pagar, agora quem não dorme é ele!"

Vale tudo para dobrar a escolha de um povo. A ameaça, a chantagem, a tentativa de suborno. Habituados a yes-men subservientes os DDTs europeus espumam de raiva com os resultados das eleições gregas. Para esta gente a democracia só é válida quando os povos votam de acordo com os seus desejos. Para a corte da Sra Merkel a verdadeira votação é a votação dos "mercados", a expressão da vontade do capital. Para o sr. Constâncio  o mesmo que devia ter estado atento às falcatruas do BPN) o que importa são as agencias de rating e não o resultado das eleições. Já se viu de tudo: a ameaça velada à Grécia, a chantagem aberta - "ou pagam ou lixam-se" - , finalmente a tentativa de sedução: se forem bons meninos, nós damos-vos mais dinheiro e até acabamos com a troika.

Como raio querem que esta gente perceba quando o ministro grego diz que o seu país não quer mais dinheiro? Como é que se atrevem? Merkl, Constâncio e aquele rapaz holandês malcriado - que pelos vistos pertence à escola dos falsificadores de títulos académicos no curriculum - comportam-se como torcionários ás ordens de agiotas. Parece um filme negro de Hollywood. Por isso não posso deixar de simpatizar com os heróis da fita, Tsipras e o seu ministro das Finanças.

Cá pelo burgo o filme transforma-se em farsa. Pouco contente com a desgraça e desgoverno em que tem o país, o nosso PM ainda se julga no direito de classificar as propostas do novo governo grego como "contos de crianças". Se o sr.Tsipras tivesse o nível de elevação de PPC poderia responder-lhe que as politicas do (des)governo PSD/CDS são um romance de Stephen King.

O problema da divida grega é que quem na verdade tem um problema são os credores e não o povo grego. O orçamento da Grécia é hoje, descontando o serviço da dívida, um orçamento superavitário. Dito de outra forma, se a Grécia resolvesse deixar de pagar a vida continuava em Atenas. Possivelmente sem luxos. Mas certamente , pelo menos para a esmagadora maioria do povo, para os desempregados e sem-abrigo, com menos problemas do que hoje. A questão é basicamente a mesma em Portugal e Espanha. Ao contrario do que nos querem fazer crer a crise não foi provocada por gregos, espanhóis ou portugueses. A não ser que a sua culpa tenha sido consumir demasiados produtos produzidos e vendidos pelos vizinhos do norte. Não tivéssemos nós comprados tantos queijos franceses, carros alemães ou telemóveis finlandeses e outro galo cantaria.

Outro problema grego ( visto do ponto de vista da elites dirigentes e do capitalismo especulador ) é a capacidade de contágio da vitória do Syriza a outros países. O caso mais aparente é o de Espanha onde o Podemos se apresenta nas sondagens com embalagem para ganhar.

Este contexto poderia, em principio, facilitar a vida ao PS. Isto se o PS fosse, de facto, uma alternativa. Mas o sr. Costa e seus acólitos têm pressa em demarcar-se não das políticas do PSD/CDS mas sim das propostas do Syriza. Com um PS assim é difícil perceber como quer uma certa "nova" esquerda construir uma plataforma de unidade, ao mesmo tempo que quer rotular o PC e a CDU como os que não querem essa unidade. Fazendo por esquecer que em Portugal as propostas mais aproximadas do Syriza são as do PCP. E que mesmo que em alguns militantes comunistas persista alguma desconfiança, a verdade  é que o PCP nunca foi, é ou será um KKE.

17 abril 2010

Puta que pariu!

A graçola boçal do nosso PM em resposta a uma invectiva do deputado Louçã, parece estar a gerar uma espécie de mini-tornado na cena politica.

As posições extremam-se entre os que acham ser legitmo tais desabafos e aqueles que consideram completamente desajustado tal comportamento

Diga-se desde já que nunca simpatizei com o estilo "tele-evangelista" de Francisco Louçã. Mas será legitimo a um Primeiro Ministro responder a um deputado - a qualquer deputado - com tamanha dose de sobranceria?

E não se diga que mais uma vez a culpa é da comunicação social, apostada em aproveitar todas as tiradas do nosso PM

Nem se diga que foi um desabafo, um deslize. Afinal estamos a falar de José Sócrates, o mestre da dissimulação e da postura estudada. Quem já viu uma entrevista do homem sabe do que estou a falar. Este é ohomem que, numa anedota que me contaram um destes dias, sairia dos destroços fumegantes do avião do presidente da Polónia, com o fato impecável e a declarar que a notícia do acidente era uma campanha negra contra ele.

Também não me parece relevante a objecção de que aquela seria uma conversa privada. Apesar dos microfones desligados foi claramente perceptível o comentário ordinarote. Em especial para o visado. E as televisões estavam lá, a RTP2 transmitia em directo.

Parece-me que existe uma linha muito clara entre o desabafo e a má criação pura e dura. Sócrates até poderia ter produzido uma pérola de elegância, sei lá "Cordata é a irmã da sua progenitora, senhor deputado!". O que é absolutamente insuportável é a atitude de amesquinhamento e desrespeito do sr. PM. Não só para com o deputado como, em ultima análise, para com todos os cidadãos que votaram em Louçã.

Por este andar ainda acabamos é como os deputados sul-coreanos, ao murro e ao pontapé!

06 abril 2010

u-boats

Portugal e a Grécia partilham pelo menos mais alguma coisa do que a desgraça das finanças: a aquisição dos mesmos submarinos à Alemanha. O tal país solidário em que os governantes tecem críticas ao carácter parasita de alguns países - leia-se Grécia, Portugal e quicá Espanha.

Pela minha parte, proponho uma forma simples de resolver tudo isto: devolve-se os barquinhos subaquáticos aos boches com um cartãozinho a dizer: "desculpem lá o mau jeito, tão carregadinhos de razão, nós não temos dinheiro para mandar cantar um cego, quanto mais para comprar submarinos. Temos pena, tomem lá os barquitos de volta, não há euros para os pagar." E prontes, a malta grega e tuga livra-se de um quinhão valente do deficit - praí uns mil milhões de euros no caso nacional, basicamente o dobro para os gregos. Os boches ficam com os barquitos na mão mas livram-se de ter de dar dinheiros para estes preguiçosos degenerados do sul. Ou então aceita-se aquela sugestão de vender ilhas, neste caso de trocar ilhas por submarinos. Aqui por estes lados não sei se os boches aceitam as Selvagens ou se teremos de lhes dar também o Pessegueiro...

( na imagem: o afundamento do Lusitannia por um submarino alemão em 1915)

24 março 2010

Congelados

Começou pelos salários da Administração Pública (curiosidade: tb. estarão incluídos os salários de ministros e deputados?). Depois foi o TGV ( mas não o Aeroporto ). A seguir anunciou-se que os congelamentos se estenderiam a um conjunto de despesas de apoio social: RSI, subsídio de desemprego, até o Complemento Social para Idosos.

É por isso da mais elementar justiça que seja também congelada a aplicação da tributação às mais valias bolsistas, não se percebendo os rebates de má consciência de alguns deputados do PS.

Finalmente fica também congelada a privatização da RTP aparentemente por necessidade de "«reequilíbrio financeiro», nas palavras do inefável Teixeira dos Santos. Permitam que traduza: até que o Estado nela injecte o dinheiro (dos contribuintes) suficiente para anular o grosso défice e a tornar apetecível para algum salvador capitalista. Business as usual: privatizar o lucrativo e nacionalizar os buracos financeiros