Avançar para o conteúdo principal

Sócrates e o centralismo democrático

A prática do PS, do seu governo e do seu primeiro-ministro José Sócrates, aproxima-se cada vez mais da prática mais ortodoxa do centralismo democrático. Na sua vertente mais centralista que democrática, e ao bom velho estilo PCP, as ideias e projectos são discutidas numa perspectiva exclusiva de cima para baixo. Os princípios são apresentados pelo líder e não são, no seu essencial, discutíveis pelos subordinados. Poderão, quando muito, ser alvo de crítica no que aos pormenores concerne.

Assim é com a Ota, mas também com o TGV, as reformas da Saúde, da Educação, da Administração Pública, entre tantos outros. Postulada a solução, esta é apresentada como saída única, os adversários denunciados como contra-revolucionários - ou no caso, contra-reformadores -, as objecções identificados como incompreensões da genialidade subjacente.

Por outro lado temos as denúncias de "desvios fraccionistas". Assim foi com Manuel Alegre, assim é com Helena Roseta, assim será com quem ousar levantar a voz contra a "linha oficial" do chefe. Queimados na praça pública, submetidos uns, expurgados, por livre vontade ou não, outros.

Sinal dos tempos é também o episódio rocambolesco da DREN. Mais do que um caso isolado de um comisário político com excesso de zelo, esta situação é bem ilustrativa da mentalidade que insidiosamente se foi instalando no Estado e na Sociedade. A coisa só é possível por, na cabeça da Sr. Directora, se ter enraizado a noção de que tal atitude agradaria ao chefe e que não seria penalizada por te-la tomado. As primeiras tomadas de posição da Ministra e do grupo parlamentar do PS, parecem indiciar que de certa forma a sra. tinha razão. Provavelmente, e por via do incómodo causado, a sr.ª será sacrificada. Mas o mal está feito.

Assim lá vamos "cantando e rindo" para uma espécie de Estado Novo democrático, orientado por um novo Salvador da Pátria, desta vez escolhido livremente pelo lusitano povo. O mesmo povo que escolheu como o "maior português de todos os tempos" o ditador de Santa Comba.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

De Frost a Seeger

Recentes citações de um amigo vieram recordar-me um autor que já não lia há coisa de três décadas: Robert Frost. Acudiu-me à memória um poema que me marcou, "On a Tree Fallen Across the Road", uma alegoria sobre as surpresas que a vida nos reserva e a nossa capacidade de as superar And yet she knows obstruction is in vain: We will not be put off the final goal We have it hidden in us to attain, Not though we have to seize earth by the pole E como os pensamentos são como as cerejas, o poema de Frost levou-me de imediato à canção de Pete Seeger que se tornou num dos hinos mais fortes do Movimento dos Direitos Civis nos Estados Unidos dos anos 60. Com a diferença - essencial! - de que aqui a mensagem já não é individual mas colectiva: "we shall overcome, some day"

Casamentos de Santo António

Acho no mínimo curiosa esta trapalhada dos casamentos de Santo António . Primeiro a Câmara diz que casa homossexuais, depois a Igreja esbraceja, depois a Igreja protesta, depois a Câmara recua, depois as organizações LGBT protestam. Eu, que sou um ateu empedernido mas que até nutro uma certa simpatia pelo Santo Antonico, acho absolutamente indecoroso ( para não dizer algo mais violento ), que alguns pares, sejam eles hetero ou homo, se pretendam aboletar à sombra da benção do santo - que é como quem diz dos euros camarários - sem para isso alinhar no casamento católico. Parece que estamos como dizia o outro: ou há moralidade ou comem todos!

A Ota é para os otários

Sinceramente nem sei como classificar as declarações de uma pessoa que até tenho em boa conta ( apesar de ser um ministro de Sócrates ) que classifica a Margem Sul como um sitio "onde não há gente, onde não há escolas, onde não há hospitais, onde não há cidades, nem indústria, comércio, hóteis e onde há questões da maior relevância que é necessário preservar". É disparate a mais para uma só tirada. Seria interessante saber a que se estava a referir o Sr. Ministro. Aquilo ali do outro lado não é Portugal? Como não restam dúvidas de que lá existe gente e comércio e indústria e cidades, só resta admitir que o nosso governo se prepare para suprir as outras faltas - escolas e hospitais - e resolver as outras questões, sejam elas quais forem, que importa preservar. O sr. ministro mais que insultar os povos de além Tejo, insultou a inteligência de todos nós. Quem insulta deve por isso pedir desculpa. Por mim, desde já o aviso que, como Director Geral de Educação da minha casa, lhe ...